Funções da linguagem na prova do Enem

A prova de redação do Enem é completa na abordagem dos vários conteúdos que são ensinados no Ensino Médio. Isso porque ela cobra de forma contextualizada aquilo que vamos aprendendo ao longo dos anos. A prova de interpretação de textos é das mais completas porque exige do participante o saber dos vários mecanismos que participam na construção do texto. neste artigo falo sobre duas funções bastante presentes nos textos literários. Acompanhe o artigo e veja mais clicando aqui lá no outro projeto voltado para o Enem.

Função Emotiva na prova do Enem


Ocorre a função emotiva ou expressiva da linguagem quando a intenção do falante é posicionar-se em relação ao tema de que está tratando, é expressar seus sentimentos e emoções, produzindo um texto subjetivo, escrito em primeira pessoa, que se transforma num espelho de seu ânimo, de suas emoções, de seu estado, enfim.
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A interjeição é, ao lado da primeira pessoa do singular e de alguns sinais de pontuação (reticências, ponto de exclamação), indicador seguro da função emotiva da linguagem, como no texto que segue, final do romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, em que o personagem Paulo Honório relata suas memórias:

Lá fora há uma treva dos diabos, um grande silêncio. Entretanto o luar entra por uma janela fechada e o nordeste furioso espalha folhas secas no chão.
É horrível! Se aparecesse alguém... Estão todos dormindo.
Se ao menos a criança chorasse... Nem sequer tenho amizade a meu filho. Que miséria!
Casimiro Lopes está dormindo. Marciano está dormindo. Patifes!
E eu vou ficar aqui, às escuras, até não sei que hora, até que, morto de fadiga, encoste a cabeça à mesa e descanse uns minutos.

RAMOS, Graciliano. São Bernardo. 35. ed. Rio de Janeiro: Record, 1980.

Quando a intenção do produtor do texto está voltada para a própria mensagem, quer na sua composição, quer na seleção e combinação das palavras, ocorre a função poética. Como afirma Roman Jakobson, a função poética "coloca em evidência o lado palpável, material dos signos".

Função Poética na prova do Enem


Ao selecionar e combinar de maneira particular e especial as palavras, o falante procura obter alguns efeitos fundamentais da linguagem poética:

■   o ritmo;
■   a sonoridade;
■   o belo e o inusitado das imagens.

Evidentemente, num texto poético você poderá encontrar também as demais funções da linguagem. Mas o valor do poético reside exatamente no trabalho realizado com a própria mensagem.

O uso de chavões na redação do Enem

O texto abaixo foi feito a partir do aproveitamento dos chamados chavões e ditos populares. Falei deles num dos meus últimos artigos lá no blog de redação para o Enem. Comento que os chavões e ditos populares devem ser evitados num texto dissertativo porque constituem erros de raciocínio e não têm fundamentação. Veja lá o artigo sobre erros mais comuns nas redações dos meus alunos e os pecados que devemos evitar na redação.


Sobre o texto abaixo, fica evidente que o autor quis obter, com ele, um tipo de performance que ressalte esse aspecto. Veja lá:

Dito e feito
O que é barato sai caro, mas a cavalo dado não se olha os dentes. Eu podia sair daquela enrascada em que me afundava a cada minuto que passava da mesma forma como entrara: com uma mão na frente e outra atrás, e nada em nenhuma delas. Afinal eu não tinha mesmo onde cair morto naquela época e qualquer coisa que me custasse um níquel seria caridade com o chapéu alheio. Quem nasce para vintém nunca chega a tostão, antes eu não esquecesse o que minha avó dizia aos quatro cantos.
Mas o fato é que água mole em pedra dura tanto bate até que fura, e convenhamos que em casos perdidos assim como o meu, o Nicanor, que falava mais que o homem da cobra, dava nó até em pingo d'água. O Nicanor, àquela altura da vida, já tinha feito de tudo um pouco, e eu inclusive conhecia sua fama de, quando vivia em São Paulo, ter vendido bonde para mineiro. Mas me era desconhecido o fato de que, uma vez no Rio de Janeiro, ele acertara a venda do Pão de Acúçar para outro mineiro, mas voltara atrás em tempo de vender a montanha para um paulista que pagava à vista. Como se vê, eu não sabia da missa o terço! Com vinagre não se pega moscas, por isso Nicanor falava das vantagens e mais vantagens que soavam música para meus ouvidos. Antes fossem moucos, mas o mercador não era eu, era ele, e cesteiro que faz um cesto faz um cento, eu sabia que acabaria fechando negócio com o Nicanor, ainda que mais tarde eu chorasse o leite derramado.
No esmero de sua arte parlamentar e persuasória, eu não via luz no fim do túnel, me esforçava para deixar a falastrice de Nicanor entrar por um ouvido e sair pelo outro, mas quê! Ele já me botara minhocas na cabeça e me convencia de que o que não tem solução, solucionado está, logo era melhor fecharmos o negócio, que seria ali no fio do bigode, dada a nossa grande e especial amizade, mas como os tempos são bicudos, você compreende, não é mesmo, é melhor botarmos os pingos nos is, e me esticou um papel esperando o jamegão.
Eu não queria fechar negócio nenhum naqueles dias de pindaíba, em que eu vivia como o senhor é servido e mais não esperava do que a promessa de um emprego na prefeitura se seu Cornélio ganhasse as eleições. Ganhar, ele ganharia, certo como dois e dois são quatro e o sol nasce redondo, mas eu não podia contar com o ovo no eu da galinha. Ainda conjecturei que tendo como lema, para os amigos tudo, para os inimigos a lei, seu Cornélio garantiria os meus próximos anos, afinal eu era amigo. Amigos, amigos, negócios à parte, foi o que ouvi mais tarde, quando precisei fazer das tripas coração para saldar meu negócio com o Nicanor. O jamegão estava lá, eu não podia negar, nem desonrar o compromisso, porque mesmo humilde eu tinha minha honra, um nome a zelar. Quem tem eu tem medo, e eu não ia mijar para trás nem enfiar a cabeça num buraco. Devo, não nego, pago quando puder, foi o que eu disse ao Nicanor quando ele veio executar o que o papel previa.
Você deu o passo maior que a perna, meu caro, e agora não adianta fugir da raia, eu ouvia Nicanor falar cuspindo no meu ouvido, escreveu não leu, o pau comeu, você sabe como funcionam as coisas por aqui, ele me dizia, sentado ao meu lado no banco da praça onde em geral fechava seus negócios. Eu passava os dedos pela aba do chapéu, já sentindo o gosto amargo do pão que o diabo amassou e que eu comeria pelas mãos do Nicanor. E dos que davam coberturas aos seus negócios, pois sempre havia alguém mais parrudo na outra ponta da corda. Na eterna briga do mar com o rochedo, o marisco é quem leva a pior. Afundado até o pescoço, eu sentia o quanto a corda me apertava, e ou pulava miudinho ou veria o sol nascer quadrado.
Voltei para minha casa, na verdade um tapera no fim da cidade, lá onde Judas perdeu as botas, como eles diziam, e remoí durante a noite inteira a insónia dos injustos. O que eu poderia fazer? Como escapar? Se corresse, o bicho pegava, eram muitos os rastreadores do boa fama naquelas bandas. Se ficasse, o bicho comia, e pela mão do delegado, que não saía do bolso do colete dos que bancavam os negócios do Nicanor. Eu entrara sem ver antes por onde sair, e estava encalacrado, fodido e mal pago. Acendi uma vela a Deus e outra ao Diabo, rezei o que me lembrava e quando o galo cantou eu corri para o terreiro, buscando no azulado da aurora a minha salvação: quem espera sempre alcança.
Adauto Leva, o autor deste texto, cursou Administração de Empresas na USPe trabalha em pesquisa de mercado. Faz parte das oficinas de criação literária da Casa de Mário de Andrade e do Museu de Lasar Segall, em São Paulo.

O impacto de invenções ligadas à linguagem

É bastante difícil, às vezes, para um estudante do Ensino Médio compreender conceitos filosóficos que exijam raciocínio mais crítico. Vejo alguns perguntando o que é Filosofia ou então para quê serve a Filosofia. O fato é que os exames estão cobrando cada vez mais os conhecimentos de modo universal, por isso a Filosofia no vestibular tem sido exigida relacionando com outros conceitos como a Literatura. Isso que eu disse sobre o estudo da Filosofia nas escolas ocorre não por falta de capacidade do aluno, mas por uma sequência de erros em sua formação. Os professores não estão acostumados [pásmem] a fazer os alunos pensarem ou, pior, têm receio de que, pensando, irão exigir mais do próprio docente que terá de preparar mais suas aulas e antecipar essas dúvidas. Confesso que não entendo quem age assim, por isso trago aqui para nossa reflexão, textos que falam da Filosofia de modo prático. Hoje, por exemplo, veremos como as invenções ao longo do tempo influenciam na linguagem humana.


Costuma-se conceber a história como a seqüência das marcas deixadas pelos acontecimentos do passado, mas nem todo acontecimento tem o mesmo impacto sobre o futuro. Alguns são mais fecundos nas possibilidades que abrem para a humanidade. É o caso de um conjunto de invenções ligadas à esfera da linguagem e da comunicação: a criação do alfabeto, a invenção da imprensa e, em nossos dias, o desenvolvimento da linguagem eletrônica.
Antes da invenção do alfabeto, eram os poetas que se encarregavam da educação na Grécia antiga, e o faziam relatando histórias épicas ou fábulas, narrações sobre as aventuras e desventuras realizadas por humanos, heróis e deuses. Assim, os jovens aprendiam com esses personagens o que era piedade, amor, traição etc. Para serem sábios, tinham de agir, por exemplo, como lhes contavam que atuava Ulisses; para serem corajosos, tinham de agir como lhes diziam que agia Aquiles (dois personagens dos maiores poemas épicos da Antigüidade grega, atribuídos a Homero). Desse modo, linguagem e ação estavam estreitamente ligadas. Podemos dizer que o. falar, o pronunciar certas palavras, tinha o poder de promover determinadas coisas, fazer com que elas acontecessem, indicar modelos a serem atingidos. Era uma linguagem de ação, baseada no relato dos acontecimentos reais ou imaginários.
Por volta de 700 a.C., com o surgimento do alfabeto, facilitando a linguagem escrita, teve início uma transformação cujas conseqüências se observam até os dias atuais. O relato oral foi perdendo a relevância exclusiva de antes, pois o texto escrito, que lentamente se difundia, falava por si mesmo e, para escutá-lo, o orador deixou de ser imprescindível. E a linguagem da reflexão foi gradati-vamente suplantando o papel antes desempenhado pelo relato oral dos acontecimentos: passou-se a perguntar "o que é a sabedoria?", "o que é a coragem?", sem recorrer aos exemplos de Ulisses ou Aquiles. Os poetas, declamadores e oradores foram sendo substituídos pelos filósofos, preceptores e professores na tarefa de educar a juventude. A narrativa épica deixou de ser a fonte exclusiva dos exemplos e modelos, cedendo espaço para os tratados filosóficos e científicos.
A partir do século XV, com outro invento, a imprensa de Gutenberg, ocorreu uma nova revolução, que aprofundou a mudança de mentalidade iniciada com o advento do alfabeto. Os livros, antes manuscritos, passaram a ser impressos e se tornaram produtos que podiam ser adquiridos com maior facilidade, favorecendo a educação, a expansão da alfabetização e divulgação das idéias filosóficas e científicas.
Algo semelhante está acontecendo nas últimas décadas, como resultado do desenvolvimento da linguagem eletrônica, que compreende grande quantidade de meios de comunicação, desde os antigos telégrafos e gramofones, até os atuais telefone, telex, fax, rádio, televisão, cinema, vídeo, fotocopiadora, computador, internet, correio eletrônico e telefone celular. O problema da distância para a comunicação praticamente acabou. Como resultado, o mundo se transformou em uma "aldeia global", (expressão usada pelo comunicólogo Marshall MacLuhan) onde diferentes culturas se interpenetram e as mudanças se converteram num aspecto permanente da vida moderna. RAFAEL ECHEVERRÍA. Ontologia dei lenguaje, p. 19-26. (Excertos traduzidos e adaptados pelo autor.)

O ponto de transição - Filosofia vestibular

Além de estudar para resolver questões complicadas de Química, Física e outras, agora os alunos terão de se preocupar com a Filosofia nos vestibulares. Alguns que têm cobrado questões de Filosofia são os vestibulares das universidades Estadual de Maringá (UEM), Federal de Uberlândia (UFU), Estadual do Oeste do Paraná (UniOeste) e Federal de Santa Maria (UFSM), entre outras.
Para ir bem nessas provas, além dos conteúdos comuns, dê uma olhada em filósofos como o teórico Thomas Hobbes e o ideólogo do liberalismo Jonh Locke. Além deles, o teórico iluminista Jean-Jacques Rousseau também merece destaque.

Os professores de Filosofia dizem que questões de lógica têm presença garantida no vestibular, especialmente no que se refere a reconhecer argumentos. Outro conteúdo importante dentro do tema é o reconhecimento dos operadores lógicos, como conjunções e disjunções.

Ditas essas coisas de caráter mais geral, podemos fazer agora as seguintes perguntas: onde acaba, no ser humano, a natureza e começa a cultura? Em que ponto, em que momento, com que fato ocorreu essa transição ou essa síntese?
O tema é polêmico. Alguns estudiosos afirmam que não há um limite rígido entre natureza e cultura, enquanto para outros um provável indicador desse limite seria a construção de instrumentos de trabalho. Aqui destacaremos duas correntes interpretativas que consideramos as mais relevantes. 

Linguagem e comunicação 
 
Alguns estudiosos entendem que o fator determinante da transição natureza - cultura é a linguagem. Trata-se de uma corrente que entende o ser humano fundamentalmente como um ser lingüístico. Para ilustrar essa concepção, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss (1908) faz o seguinte exercício de imaginação:
Suponhamos que num planeta desconhecido encontremos seres vivos que fabricam utensílios. Isso não nos dará a certeza de que eles se incluem na ordem humana. Imaginemos, agora, esbarrarmos com seres vivos que possuam uma linguagem que, por mais diferente que seja da nossa, possa ser traduzida para nossa linguagem - seres, portanto, com os quais poderíamos nos comunicar. Estaríamos, então, na ordem da cultura e não mais da natureza. (LÉVI-STRAUSS, Claude. Culture et langage. Apud CUVILLIER, Arnoud. Sociologia da cultura, p. 2.)
Assim, segundo esse antropólogo, o que teria distanciado definitivamente o homem da ordem comum dos animais - animal que ele também é e nunca deixará de ser - e permitido a sua entrada no universo da cultura seria o desenvolvimento da linguagem e da comunicação.
De fato, a linguagem constitui uma das dimensões mais importantes da cultura, pois é ela que permite o intercâmbio das experiências e as aquisições culturais. É pela linguagem, por exemplo, que os pais comunicam aos filhos não apenas suas experiências pessoais, mas algo mais amplo: as experiências acumuladas e compartilhadas pela sociedade. De modo inverso, é também por meio da linguagem que o conhecimento individual de cada pessoa pode in-corporar-se ao patrimônio social.

Questão ecológica

Esse modelo de relação do homem com a natureza — que fez surgir diversos problemas ambientais e ameaça acabar com os recursos naturais — tem sido, no entanto, questionado por ambientalistas e pensadores do mundo inteiro, e de distintas maneiras.

Uma delas fundamenta seu questionamento na crítica ao antropocentrismo, isto é, nega a crença básica de que o homem seja superior aos demais seres da natureza por seus dotes racionais. Um dos principais argumentos é o de que foi justamente a razão humana que conduziu grande parte da humanidade a graves problemas, como a perda da biodiversidade, a poluição e o aquecimento global, o que enfraquece esse estatuto de superioridade. É a posição da chamada ecologia profunda, movimento ecológico que cresce na Europa e nos Estados Unidos.

A principal via de questionamento da atual relação homem-natureza não abandona, no entanto, a perspectiva humanista, posicionando o homem como centro de preocupação e referência. Critica igualmente o tipo de racionalidade que orientou até aqui o processo civilizatório ocidental, mas entende que somente o homem pode, entre outras coisas, julgar o que lhe convém e o que não lhe convém e, dessa forma, contribuir na reorientação da vida social, a fim de assegurar uma relação mais harmoniosa com a natureza.

"Desencantamento" do mundo

Esse respeito e temor à natureza a que nos referimos no post anterior foi sendo gradativamente reduzido à medida que as sociedades se tornavam mais complexas e desenvolviam novas formas de conhecer. Por meio do conhecimento racional, o homem foi se desprendendo dos elos míticos, sobrenaturais, que o ligavam à natureza.

Esse processo, iniciado nos séculos XVI e XVII com o desenvolvimento da ciência moderna, pode ser chamado "desencantamento" do mundo, ou seja, a natureza foi perdendo o seu caráter sagrado e passou a ser estudada e manipulada. Em termos históricos, esse "desencantamento" vincula-se à crença no progresso, característica do movimento iluminista do século XVIII. É a época das revoluções burguesas no campo político e da revolução industrial no campo econômico. A partir do século XIX, intensificaram o domínio e a exploração da natureza, possibilitados pelo avanço da ciência e da tecnologia e pelo modo de organização social (aglomeração nas cidades) e econômico (capitalismo).

A relação do homem com a natureza

Vimos até aqui que o homem é um ser que se distingue dos demais por transformar a natureza, criando para si uma "segunda natureza", a cultura. Embora essa intervenção tenha trazido, ao longo dos séculos, melhorias à vida humana, não se pode negar que provocou também grandes problemas ambientais, em virtude da forma e da intensidade com que ela se deu, sobretudo no século XX.

Nem sempre foi assim. No passado remoto da humanidade, a natureza era sentida como uma potência superior à qual os homens estavam submetidos. Os fenômenos naturais eram compreendidos como "fenômenos sagrados", que revelavam uma intenção, uma razão. Ora eram vistos como recompensa ou punição divina pelos atos humanos, ora eram percebidos como a própria manifestação dos deuses, que conversavam diretamente com os homens. Era uma natureza encantada.