O impacto de invenções ligadas à linguagem

É bastante difícil, às vezes, para um estudante do Ensino Médio compreender conceitos filosóficos que exijam raciocínio mais crítico. Vejo alguns perguntando o que é Filosofia ou então para quê serve a Filosofia. O fato é que os exames estão cobrando cada vez mais os conhecimentos de modo universal, por isso a Filosofia no vestibular tem sido exigida relacionando com outros conceitos como a Literatura. Isso que eu disse sobre o estudo da Filosofia nas escolas ocorre não por falta de capacidade do aluno, mas por uma sequência de erros em sua formação. Os professores não estão acostumados [pásmem] a fazer os alunos pensarem ou, pior, têm receio de que, pensando, irão exigir mais do próprio docente que terá de preparar mais suas aulas e antecipar essas dúvidas. Confesso que não entendo quem age assim, por isso trago aqui para nossa reflexão, textos que falam da Filosofia de modo prático. Hoje, por exemplo, veremos como as invenções ao longo do tempo influenciam na linguagem humana.


Costuma-se conceber a história como a seqüência das marcas deixadas pelos acontecimentos do passado, mas nem todo acontecimento tem o mesmo impacto sobre o futuro. Alguns são mais fecundos nas possibilidades que abrem para a humanidade. É o caso de um conjunto de invenções ligadas à esfera da linguagem e da comunicação: a criação do alfabeto, a invenção da imprensa e, em nossos dias, o desenvolvimento da linguagem eletrônica.
Antes da invenção do alfabeto, eram os poetas que se encarregavam da educação na Grécia antiga, e o faziam relatando histórias épicas ou fábulas, narrações sobre as aventuras e desventuras realizadas por humanos, heróis e deuses. Assim, os jovens aprendiam com esses personagens o que era piedade, amor, traição etc. Para serem sábios, tinham de agir, por exemplo, como lhes contavam que atuava Ulisses; para serem corajosos, tinham de agir como lhes diziam que agia Aquiles (dois personagens dos maiores poemas épicos da Antigüidade grega, atribuídos a Homero). Desse modo, linguagem e ação estavam estreitamente ligadas. Podemos dizer que o. falar, o pronunciar certas palavras, tinha o poder de promover determinadas coisas, fazer com que elas acontecessem, indicar modelos a serem atingidos. Era uma linguagem de ação, baseada no relato dos acontecimentos reais ou imaginários.
Por volta de 700 a.C., com o surgimento do alfabeto, facilitando a linguagem escrita, teve início uma transformação cujas conseqüências se observam até os dias atuais. O relato oral foi perdendo a relevância exclusiva de antes, pois o texto escrito, que lentamente se difundia, falava por si mesmo e, para escutá-lo, o orador deixou de ser imprescindível. E a linguagem da reflexão foi gradati-vamente suplantando o papel antes desempenhado pelo relato oral dos acontecimentos: passou-se a perguntar "o que é a sabedoria?", "o que é a coragem?", sem recorrer aos exemplos de Ulisses ou Aquiles. Os poetas, declamadores e oradores foram sendo substituídos pelos filósofos, preceptores e professores na tarefa de educar a juventude. A narrativa épica deixou de ser a fonte exclusiva dos exemplos e modelos, cedendo espaço para os tratados filosóficos e científicos.
A partir do século XV, com outro invento, a imprensa de Gutenberg, ocorreu uma nova revolução, que aprofundou a mudança de mentalidade iniciada com o advento do alfabeto. Os livros, antes manuscritos, passaram a ser impressos e se tornaram produtos que podiam ser adquiridos com maior facilidade, favorecendo a educação, a expansão da alfabetização e divulgação das idéias filosóficas e científicas.
Algo semelhante está acontecendo nas últimas décadas, como resultado do desenvolvimento da linguagem eletrônica, que compreende grande quantidade de meios de comunicação, desde os antigos telégrafos e gramofones, até os atuais telefone, telex, fax, rádio, televisão, cinema, vídeo, fotocopiadora, computador, internet, correio eletrônico e telefone celular. O problema da distância para a comunicação praticamente acabou. Como resultado, o mundo se transformou em uma "aldeia global", (expressão usada pelo comunicólogo Marshall MacLuhan) onde diferentes culturas se interpenetram e as mudanças se converteram num aspecto permanente da vida moderna. RAFAEL ECHEVERRÍA. Ontologia dei lenguaje, p. 19-26. (Excertos traduzidos e adaptados pelo autor.)

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