O ser humano entre dois mundos

O que é o ser humano? Assim podemos sintetizar a reflexão de Blaise Pascal, filósofo e cientista francês do século XVII. E a partir dela, formular outras mais, como, por exemplo, "Qual o lugar do homem no Universo?" e "O que é o Universo para o ser humano?" Ou seja, antes de falar de filosofia, vamos iniciar o nosso estudo discutindo sobre o ser que a produz. Vamos primeiro filosofar sobre o ser humano e aquilo que o torna diferente e singular.

Os animais e o homem

Comecemos esta busca comparando o corpo humano ao de outros animais. Veremos que nosso corpo não é tão capacitado quanto o deles para enfrentar uma série de dificuldades. Como ilustra o arqueólogo australiano Gordon Childe (1892-1957), o homem não tem, por exemplo, um couro peludo como o do urso para manter o calor corporal num ambiente frio. O corpo humano também não é excepcionalmente bem adaptado, como o de alguns animais, à fuga, à defesa própria ou à caça. Não tem a capacidade de correr como uma lebre ou um avestruz. Não tem a coloração protetora do tigre ou a armadura defensiva da tartaruga ou da lagosta. Não tem asas para voar e dar-lhe a vantagem de espionar e localizar sua caça. Faltam-lhe o bico, as garras e a acuidade do gavião. No entanto, conclui Gordon Childe:

O ser humano pode ajustar-se a um número maior de ambientes do que qualquer outra criatura, multiplicar-se infinitamente mais depressa do que qualquer mamífero superior, e derrotar o urso polar, a lebre, o gavião e o tigre, em seus recursos especiais. Pelo controle do fogo e pela habilidade de fazer roupas e casas, o homem pode viver, e vive e viceja, desde os pólos da Terra até o equador. Nos trens e automóveis que constrói, pode superar a mais rápida lebre ou avestruz. Nos aviões e foguetes pode subir mais alto do que a águia, e, com os telescópios, ver mais longe do que o gavião. Com armas de fogo pode derrubar animais que nenhum tigre ousaria atacar. Mas fogo, roupas, casas, trens, automóveis, aviões, telescópios e armas de fogo não são parte do corpo do homem. Eles não são herdados no sentido biológico. 0 conhecimento necessário para sua produção e uso é parte do nosso legado social. Resulta de uma tradição acumulada por muitas gerações e transmitida, não pelo sangue, mas através da linguagem (faia e escrita). A compensação que o homem tem pelos seus dotes corporais relativamente pobres é o cérebro grande e complexo, centro de um extenso e delicado sistema nervoso, que lhe permite desenvolver sua própria cultura. (CHILDE, Gordon. A evolução cultural do homem, p. 40-1.)

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